Mostrando postagens com marcador Tatuagem oriental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tatuagem oriental. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Feliz Dia do Tatuador

Fotopor : Leandro Andrade



Há quase trinta anos tive meu primeiro contato com a tatuagem, tinha 13 anos de idade e era um guri tímido que tinha como maior diversão no colégio ir para a Biblioteca ler livros ou desenhar fugindo de qualquer possibilidade de socialização. Foi numa dessas incursões aos livros que vi uma Enciclopédia falando sobre tatuagem e os guerreiros maoris, fiquei de cara fascinado com a ideia de desenhar no corpo.

Conversando com um amigo da rua o Lila, uma das poucas amizades que tinha na época, ele falou que tinha visto em uma viagem ao interior uma cara fazer uma e explicou mais ou menos como funcionava. 

Dai foi um pulo pra eu ir na Casa do Colegial comprar o velho Nanquim Pelikan, uma agulha de injeção subcutânea e me esconder dentro de casa riscando minha primeira tattoo, um abutre na palma da mão que carrego até hoje com orgulho. Embora muitos digam que ele parece mais um jumento heheheh. Minha mãe lógico que descobriu rápido e foi uma bronca daquelas.

Um tempo depois comecei a fazer artesanato Hippie e em sociedade com esse amigo adquirimos uma maquininha de tattoo caseira e algumas tintas de um artesão (fruto do escambo de um bojão de cozinha e um colchão) . Foi uma bronca essa máquina, pois esse meu amigo tatuou os seus irmão menores com uma mão dando o dedo e pra completar a mãe dele pegou ele no quarto tatuando o próprio peito afora outros probleminhas que é melhor não contar aqui. Resultado tivemos que desfazer da máquina mais não do gosto por tattoo.

Com 16 anos fiz a minha primeira tatuagem de “verdade”, feita de máquina artesanal com um hippie lá na Rodoviária Velha, e fui o primeiro guri da escola a aparecer com tatuagem. Uma caveira que mais parecia Geleia dos Caça Fantasma, mais era foda demais, naquela época quase ninguém tinha tatuagem não existia estúdio e tudo era muito underground. Fiquei semanas me achando a ultima bolacha do pacote. Foi nessa época que aprendi a me socializar comecei a andar com a galera do Rock n Roll e guardo boas lembranças da turma que se reunia na Praça Clementino Procópio.

Por volta dos 17 anos minha vida deu uma reviravolta e descobri que ia ser pai, dai tive que buscar outros caminhos e abandonei a tatuagem e o artesanato hippie, que na época não existia qualquer possibilidade de profissionalização. Fui estudar pra fazer faculdade e arrumar uns bicos dando aula em escolinha e digitando trabalho em computador. Algum tempo depois me formei em Jornalismo e me encantei com a Direção de Arte em Publicidade e Fotografia Publicitária onde trabalhei por mais de dez anos e que me abriu as portas para o ensino em Universidade.

Com tudo isso a tatuagem não saiu da minha vida e da minha a cabeça e fui me tatuando com os amigos, primeiro Haroldo Tattoo que teve o primeiro estúdio profissional de tatuagem em Campina Grande e depois com os amigos do metal que estavam em começo da carreira o Sergio Tribal e o Hugo Leonardo Silva.

Nesse tempo consumi muita informação sobre tatuagem e acompanhava de perto a cena no Brasil e no Mundo em zines online como BME e Lost Art que tratavam sobre tatuagens e Body Modification. Virar tatuador nessa época não passava mais na cabeça, tinha a tatuagem como parte do estilo de vida underground que admirava e só. Meu tempo era consumido produzindo arte para propaganda, páginas de Internet e Fotografia de produto.

Em 2004 o “destino” tratou de marcar um novo encontro meu com a arte da tattoo. Nessa época além de todas as outras atividades que exercia entrei numa sociedade de confecção de roupas em Pernambuco e uma das minhas funçoes era desenvolver estampas para camisetas e biquínis. Não é que um belo dia apareceu uma coleção em uma das marcas que trabalhava cujo tema eram desenhos Old School e cultura Hot Rod, é lógico que fiquei bem feliz.

Um desenho aqui e outro ali e em pouco tempo voltei a desenhar no papel e as boas respostas aos meus rabiscos só aumentaram a vontade de me aproximar novamente da tatuagem. No anos seguinte com o Decimo terceiro comprei uma maquina de tattoo algumas tintas e comecei de forma despretensiosa a tatuar o povo de casa ( minha esposa Luana Meireles foi a primeira vitima) a mim mesmo e a alguns amigos que sou grato até hoje. Não tinha intenção de virar profissional era só um hobby para passar tempo.

Resultado com o passar do tempo a tatuagem foi tomando conta da minha vida, ganhando espaço até que 2006 larguei a fotografia publicitária, a direção de artes, sai da sociedade na confecção e montei um estúdio de tatuagem bem pequeno e acanhado o Mahadeva Custom Tattoo, em homenagem ao deus Hindu Shiva. O curioso que o nome veio de uma festa que fizemos um tempo atrás e não tinha dado muito certo heheheh Ah! Tb já fui DJ e fiz festas Raves no final dos anos 90.

Quando eu deixei tudo de lado pra apostar na tatuagem muita gente disse que tava ficando louco, meus parentes então no começo nem aceitavam a ideia de um familiar tatuar. Só tive apoio da minha esposa e filhas e de alguns poucos amigos, mais as coisas foram dando certo. Errei muito(quem nunca?) mais os acertos foram em número maior que os erros e o estúdio e a tatuagem foram ganhando espaço no mercado e na minha vida. Costumo falar que fui agraciado com a chance de viver muitas encarnações em uma única vida.

Nessa história já se passaram 10 anos e o que posso falar da tatuagem é que além de ser um dos links da minha vida com a cultura underground é o meu trabalho, meu ganha pão, minha paixão, motivo de 90% dos meus pensamentos, outros 10% são motos, carro antigo e Rock n Roll (heheheh brincadeira família).

Considero a tatuagem a arte visual mais nobre que existe, me desculpem as outras, pois ela é a única que utiliza como o suporte as mais perfeita das telas, a Pele humana. A ela dedico todo meu estudo, minha busca por excelência artística e técnica e não consigo me imaginar hoje sem ser tatuador.

Hoje tenho orgulho do meu trabalho e de ver que minha filha mais velha segue meus passos como uma boa e reconhecida tatuadora.

Pois é precisava compartilhar um pouco dessa história com vocês escrevendo esse textão (que é umas das formas que mais me sinto a vontade de para expressar meus pensamentos).

O que mais posso falar se não um: Feliz Dia do Tatuador para todos que amam essa arte e levam em suas mãos uma tradição que tem mais de 5000 anos de história.

Ps: A tatuagem já foi banida, discriminada, criminalizada tida como um desvio de caráter mais permaneceu viva até os dias de hoje. Torço para que um dia nossa profissão seja reconhecida oficialmente para que ameaças como a Lei do Ato Médico não mais aconteçam.


#naoaoatomedico #muitoalemdoinkmaster #tatuagem #clturaunderground


Campina Grande, 20 de Julho de 2016 as 23:40 min
















Sóstenes Lopes
Jornalista e Tatuador no 
Mahadeva Custom tattoo

domingo, 24 de maio de 2015

UKIYO-Ê – A ARTE QUE INFLUENCIOU A TATUAGEM JAPONESA

.
..Viver apenas o momento presente, 
entregar-se inteiramente à contemplação da lua, 
da neve, da flor de cerejeira e da folha de plátano ... 
não se deixar abater pela pobreza e não deixá-la 
transparecer em seu rosto, mas flutuando 
como uma cabaça na corrente do rio: 
que é chamado de Ukiyo...

Asai Ryōi - Ukiyo Monogatari 


Foi no período Edo entre os séculos XVII e XIX que surgiu no seio das classes mais baixas da sociedade japonesa um estilo artístico que viria  servir de base para o universo pictórico da tatuagem oriental. Ao contrário dos estilos clássicos como o Yamato-ê que retratava a nobreza e do Sumi-ê que abordava temáticas religiosas, esse novo estilo se voltou para a vida cotidiana mostrando artistas do popular teatro Kabuki, Cortesãs, lutadores de Sumô, mitos populares, paisagem e até cenas eróticas. Seu nome, Ukiyo-ê, ou em bom português “retratos de um mundo flutuante” em alusão ao pensamento budista sobre a efemeridade do mundo.

Derivado da Xilogravura herdada dos chineses, o Ukiyo-ê aparece pela primeira vez na década de 1670 a partir dos trabalhos monocromáticos de Hishikawa Moronobu, um ilustrador e impressor de livros ehon, que passou a vender folhas avulsas com objetivo de baixar custos e tornar seus trabalhos mais accessível a população urbana. Foi somente no século XVIII que surgiu a técnica do nishiki-ê criada por Suzuki Haronobu que permitiu impressões multicoloridas que tanto caracterizam o estilo.

Para se fazer uma folha de Ukiyo-ê é necessário muita dedicação e cuidado, primeiro o desenho é feito a mão, posteriormente é gravada com um buril em uma matriz de madeira que vai ser utilizada para impressão. Para cada cor do desenho  exigi uma matriz diferente e utiliza um sistema de registro para que cada cor seja impressa em seu devido lugar. As tiragens giram em torno de 100 a 300 exemplares o que vai depender do desgaste da matriz.

Grandes mestres surgiram na era de ouro do Ukiyo-ê, Hokusay, Hiroshigui, Utamaro e Kunisada são alguns dos mais importantes. KatushiKa Hokusay talvez seja dentre eles o mais lembrando, é dele a famosa gravura “A grande Onda de Kanagawa”, integrante da série As trinta e seis vistas do Monte Fuji, bem como as Hokusay Manga que deram origem posteriormente aos quadrinhos japoneses. Ele também publicou várias Shungas, gravuras eróticas que embora proibidas faziam muito sucesso entre a população.

A ligação entre o Ukiyo-ê e a tatuagem se deu principalmente a partir da tradução por Bakin do Suikoden, um conto chinês do século XIV sobre as aventuras de 108 guerreiros que lutavam protegendo os mais pobres. O Suikoden  virou febre no teatro Kabuki e artistas com Kunyioshi e Hokusai foram convidados a produzir gravuras com o tema para o teatro. Alguns os heróis do conto como Byôtaichû Setsuyei e Kyumonryô Shishin tinham seus corpos cobertos de desenhos. Logo carregadores de palanquins, facínoras, bombeiros e gravadores de Ukiyo-ê começaram a estampar seus corpos com tattoos inspirados nesses heróis. O Ukiyo-ê então se torna a maior fonte de inspiração para a tatuagem japonesa.

Com a Era Meiji e a abertura do Japão para o ocidente, o Ukiyo-ê que estava em decadência na sua terra natal, cai no gosto da Europa. As folhas inicialmente chegam ao Velho Mundo embalando peças de porcelana e outras mercadorias mais logo se tornam objetos de desejos de colecionadores e    chama atenção de jovens artistas europeus, influenciando escolas tão diversas com o Impressionismo e o Cubismo.

Após a Segunda Guerra o estilo renasce no Japão a partir de jovens artistas e com a popularização e reconhecimento tatuagem japonesa ela deixa as folhas de papel e ganha o mundo gravando “os retratos de um mundo flutuante” na pele de pessoas dos cinco continentes.


Video mostrando o porcesso de Impressão do Ukiyo-ê




Grande Onda de Kanagawa por Hokusai




Sunga, gravura erótica por Hokusai



Gueisha por Utamaro



Guerreiro do Suikoden por Kunyioshi




Tatuagem feita por mestre Horiyoshi III com tema do Ukiyo-ê






Sóstenes Carneiro Lopes
Jornalista de formação, é tatuador no
 estúdio Mahadeva Custom Tattoo e 
Professor de Linguagem Visual na 
graduação em Arte e Midia /UFCG

domingo, 19 de abril de 2015

TATUAGEM JAPONESA - PARTE I / HISTÓRIA

A tatuagem apareceu muito cedo na história do Japão, viajantes chineses que aportaram no arquipélago durante o período Yayoi (300 D.C -300D.C) registraram as estranhas pinturas corporais dos nativos.

O povo Ainu, habitantes primitivos do norte do Japão, costumavam tatuar seus lábios e mãos marcando sua posição social no grupo.

Durante os períodos Kabum, Tenna ( Sec XVII) e Edo a tatuagem ganhou um aspecto negativo na sociedade japonesa, sendo usada como punição para criminosos. O bokkei ,marcas feitas a tinta no corpo, indicavam os tipos de crime praticados por seu portador e eram feitas por um tatuador oficial do estado. 


Muitos fascinoras terminavam por cobrir suas marcas prisionais com outros desenhos, numa tentativa de esconder seu passado. Temas como os Guerreiros do Suikoden, uma tradicional lenda chinesa se tornaram populares no Irezumi com era chamada pejorativamente a tatuagem. A famosa máfia Yakusa toma para si as tatuagens com simbolo de bravura e virilidade.

Com o florescer cultural do período Edo e a popularização da arte do Ukiyo-ê, temas como dragões, carpas, gueixas, seres místicos e samurais foram incorporados ao repertório e agora bombeiros,trabalhadores braçais, pequenos artesãos, mafiosos e ronins também aderiam a arte da tattoo. Nesse período surgiram grandes inovações técnicas, e os tatuadores passaram a ser considerados verdadeiros mestres da arte.

Entretanto devido ao preconceito com os praticantes da arte o governo japonês baixou um decreto no final do Séc. XVIII considerando tatuagem um crime possível de punição com banimento para o tatuador e o tatuado. Até o período Meiji a tatuagem passou pós momentos de proibição e aceitação por parte das autoridades. Nesta época os primeiros navegadores europeus que chegaram ao Japão ficaram impressionados com as tatuagens e pressionaram o governo a liberá-las para estrangeiros. Personagens da nobreza europeia com Nikolai II da Rússia, Geórgios, príncipe da Grécia entre outros foram tatuados por mestres japoneses.

Somente na década de 40 do Século XX é que a tatuagem foi finalmente liberada no Japão, mais ainda hoje guarda uma aura marginal e pessoas com tatuagem ainda não podem frequentar alguns locais sem antes esconder suas tattoos. O curioso é que esta arte tão obscura em seus pais é admirada e respeitada em todo mundo como uma das mais importantes manifestações artísticas daquele povo.

O Horimono, como é chamada a tatuagem japonesa por seus mestres, guarda um rico código de construção dos elaborados desenhos, bem como uma rígida disciplina no processos de apredizado, que dura até cinco anos. Nomes como Horihide e Horiyoshi I mantiveram acesa a chama do Tebori, tradicional método de tatuagem que utiliza varas de bambO com agulha no lugar das máquinas, e deixaram grandes discípulos como o respeitado Horiyoshi III, uma da lendas vivas da tatuagem oriental.